Vou-te dizer o que eu sinto no final deste ano. Sinto-me como chegando ao fim da primeira metade do caminho da minha vida. Um fim indispensável, sem o qual não seria possível a segunda metade. (Aproveito para te dizer que a nossa separação foi por mim propositada. Sem ela sentia-me irreal mente incapaz de te ter na segunda parte...)
Será agora a minha liberdade? Não exactamente. Nem uma
libertação tão-pouco. È mais como um divorcio. Neste divorcio eu fui a parte
que não queria que o “casamento” se desfizesse mas que no entanto lhe pôs termo
e fim. Era aquele que esperava, sentado, pensando que tudo se ia arranjar, ela
vai reconsiderar, vai voltar para mim e tudo vai correr melhor. Mas ela nunca
mais voltou. E agora estamos velhos, é tarde de mais, os laços não partiram,
gastaram-se á muito tempo. Mais uma vez, sou eu o rejeitado.
Por isso adeus, Lorraine. Não te preocupes; não virei bater á tua porta ( pelo menos em breve não) não vou telefonar-te ao meio da noite e desligar quando tu atenderes ( pelo menos em breve não). Não te seguirei quando saíres com um tipo qualquer ( pelo menos em breve não). A minha “casa” ardeu, os meus “pais” morreram e aqueles que eu amava foram-se embora. Há ainda quem eu ame, mas também lhe direi adeus.
Vou andar – caçar – sozinho.
Lorraine, nadei nas tuas águas tépidas e corri feliz pelos caminhos da tua montanha, percorri as tuas ruas imundas. Comi o teu sal e bebi-te a alma. Oh, meu tudo-ao-mesmo-tempo, meu abraço, minha fábula, meu abismo marinho, minha cornucópia, minha primeira grande verdade. Pode ser que não tenha sido digno de ti, que tenha sido imperfeito, confesso, por isso, Lorraine, fonte do meu imaginário, nascente da minha selvajaria, destruidora do meu coração.
Adeus
P.S: Até um dia. Fode com quantos queiras mas ama-me. Ou guarda-o para mim.
“claro! A vida não era como um tremor de terra. Podiam
surgir brechas, mas a maior parte delas iria fechar de novo, de certo modo. Mas
este parecia ser como se tivesse aparecido um abismo de ficção cientifica, tão
vasto que não havia maneira de o ultrapassar. Era só o fim da primeira metade. Inicio da segunda. Era só.”
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