terça-feira, 20 de setembro de 2011


Meu amor Lorraine;
                Também já fui um maníaco de tudo o que é acontecimento. A acção era o meu estimulante preferido. Gostava de colar a cara á superfície quente e suada daquilo que estava a acontecer, de olhos abertos, sorvendo o suco da actualidade, e tendo todos os outros sentidos desligados. Nunca me ralei se aquilo cheirava mal , ou se aquele toque viscoso dava vontade de vomitar ou o que aconteceria ás minhas papilas se me lembrasse de lamber, nem mesmo se havia gritos. Só me interessava o aspecto. Durante muito tempo, foi aí que eu procurei os sentimentos e a verdade. Aquilo-que-esta-a-acontecer: não há nada melhor para uma pessoa se agarrar com força, desde que deixemos lá a pele. Nada no mundo de mais excitante. Há muito que eu criei artes de me tornar invisível. Foi assim que pude chegar mesmo até junto dos actores do grande do mundo, os doentes, os moribundos, os loucos, os que estão de luto, os gananciosos, os ricos,  os extaticos, os despojados, os coléricos, os homicidas, os dissimulados, os maus, as crianças, os bons, os famosos: foi assim que eu pude esgueirar.me para dentro do espaço deles, mesmo para o centro da sua raiva, desgosto ou extrema provocação, a fim de penetrar o momento decisivo do seu esterno-mundo e tirar a merda da minha fotografia.
                Em muitas ocasiões, este dom da desmaterialização salvou.me a vida, quando alguém me dizia -  não vás por essa estrada que esta infestada de franco-atiradores, farias melhor passar ao largo daquele território de um senhor-da-guerra, não entres naquele feudo da milícia -  sempre me senti irresistivelmente  atraído. Mal dito eu apressava-me imediatamente a cruzar a fronteira sem retorno. Quando voltava olhava-me com estranheza como se eu fosse um fantasma. A explicação mais plausível para a minha audácia é que sei tornar-me insignificante. Não fisicamente, porque sou um tipo alto e troncudo, mas psicologicamente. Faço um sorriso auto-desvalorizante e vou mirrando ate á insignificância.. pela minha aparência convenço o “ atirador de elite” que a sua bala seria mal empregada e a minha maneira de andar faz o “ senhor da guerra” decidir não sujar o seu machado comigo. Faço-os sentir que não sou digno da sua violência. Talvez resulte porque estou a ser sincero, porque desejo realmente desvalorizar-me. Trago comigo experiências e memorias que vêm em meu auxilio quando quero relembrar o meu escasso valor. E é assim que uma forma de modéstia adquirida, produto da minha vida e dos meus erros passados, tem conseguido manter-me vivo.
                - “Disparate – fora um dia a tua opinião- isso é a outra versão da tua técnica para engatar miudas”
                A modéstia da bom resultado com as mulheres é bem verdade. Mas com as mulheres a minha modéstia é fingida. (Contigo a minha altivez é fingida) O meu sorriso  simpático, os meus modos tímidos... quanto mais recuo, com o meu casaco , sorrindo timidamente sob a cabeça mais elas avançavam sem hesitar. No amor avança-se recuando. Far-lo-ei agora. Para mim o amor fora um dia uma arte, a ars  amatória, o primeiro contacto, o desfazer de ansiedades, os estimulo do interesse, a falsa despedida,  o regresso lento e inexorável. A lenta espiral concêntrica do desejo. Kama. A arte de amar.
                Agora é um puro caso de vida ou morte. O amor é para sempre e dura para alem da morte. O amor é Lorraine e para lá de Lorraine  não há senão o vazio.
Amo-te Impessoal-mente. Amo-te com um amor vespertino

                “Ainda estou vivo, ainda só me escarraram em cima e me chamaram nomes umas duzentas vezes. Os nomes não me fazem mossa. O que me preocupa são os homens que usam armas pesadas.”

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