Meu amor Lorraine;
Também já fui um maníaco de tudo
o que é acontecimento. A acção era o meu estimulante preferido. Gostava de
colar a cara á superfície quente e suada daquilo que estava a acontecer, de
olhos abertos, sorvendo o suco da actualidade, e tendo todos os outros sentidos
desligados. Nunca me ralei se aquilo cheirava mal , ou se aquele toque viscoso
dava vontade de vomitar ou o que aconteceria ás minhas papilas se me lembrasse
de lamber, nem mesmo se havia gritos. Só me interessava o aspecto. Durante
muito tempo, foi aí que eu procurei os sentimentos e a verdade. Aquilo-que-esta-a-acontecer:
não há nada melhor para uma pessoa se agarrar com força, desde que deixemos lá
a pele. Nada no mundo de mais excitante. Há muito que eu criei artes de me tornar invisível. Foi assim que pude chegar mesmo até junto dos actores do grande do
mundo, os doentes, os moribundos, os loucos, os que estão de luto, os
gananciosos, os ricos, os extaticos, os
despojados, os coléricos, os homicidas, os dissimulados, os maus, as crianças,
os bons, os famosos: foi assim que eu pude esgueirar.me para dentro do espaço
deles, mesmo para o centro da sua raiva, desgosto ou extrema provocação, a fim
de penetrar o momento decisivo do seu esterno-mundo e tirar a merda da minha fotografia.
Em muitas ocasiões, este dom da desmaterialização salvou.me a vida, quando alguém me dizia - não vás por essa estrada que esta infestada de
franco-atiradores, farias melhor passar ao largo daquele território de um senhor-da-guerra, não entres naquele feudo da milícia - sempre me senti irresistivelmente atraído. Mal
dito eu apressava-me imediatamente a cruzar a fronteira sem retorno. Quando
voltava olhava-me com estranheza como se eu fosse um fantasma. A explicação mais plausível para a minha audácia é que sei tornar-me insignificante. Não
fisicamente, porque sou um tipo alto e troncudo, mas psicologicamente. Faço um sorriso auto-desvalorizante e vou mirrando ate á insignificância.. pela minha aparência convenço o “ atirador de elite” que a sua bala seria mal empregada e
a minha maneira de andar faz o “ senhor da guerra” decidir não sujar o seu
machado comigo. Faço-os sentir que não sou digno da sua violência. Talvez resulte
porque estou a ser sincero, porque desejo realmente desvalorizar-me. Trago comigo experiências e memorias que vêm em meu auxilio quando quero relembrar o meu
escasso valor. E é assim que uma forma de modéstia adquirida, produto da minha
vida e dos meus erros passados, tem conseguido manter-me vivo.
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“Disparate – fora um dia a tua opinião- isso é a outra versão da tua técnica para engatar miudas”
A modéstia da bom resultado com as mulheres é bem verdade. Mas com as mulheres a
minha modéstia é fingida. (Contigo a minha altivez é fingida) O meu sorriso simpático, os meus modos tímidos... quanto mais recuo, com o meu casaco , sorrindo
timidamente sob a cabeça mais elas avançavam sem hesitar. No amor avança-se
recuando. Far-lo-ei agora. Para mim o amor fora um dia uma arte, a ars amatória, o primeiro contacto, o desfazer de ansiedades, os estimulo do
interesse, a falsa despedida, o regresso
lento e inexorável. A lenta espiral concêntrica do desejo. Kama. A arte de
amar.
Agora
é um puro caso de vida ou morte. O amor é para sempre e dura para alem da
morte. O amor é Lorraine e para lá de Lorraine não há senão o vazio.
Amo-te Impessoal-mente. Amo-te com
um amor vespertino
“Ainda
estou vivo, ainda só me escarraram em cima e me chamaram nomes umas duzentas
vezes. Os nomes não me fazem mossa. O que me preocupa são os homens que usam
armas pesadas.”
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